midias-sociais

São duas áreas do conhecimento interdependentes, mas que, na prática, estão cada vez mais distantes. Uma guinada nesta tendência se faz necessária

Ao mesmo tempo que penso 24 horas por dia em comunicação, acabo que entrando invariavelmente na seara da educação. E não é por acaso que este cruzamento por vezes acontece. São áreas do conhecimento distintas, é verdade, mas que caminham juntas em muitos aspectos. Historicamente, inclusive, as pesquisas científicas sempre caminharam se entrecruzando.

E isso acontece pelo simples motivo de que educar o outro é também um ato de comunicar-se bem. O processo de ensino-aprendizagem é também um fenômeno comunicacional, resultante da interação de discursos, linguagens, da retroalimentação de repertório entre agentes e interagentes.

Mas então porque não os chamo de irmãos? Pois entendo que atualmente, e de forma absolutamente equivocada, estas duas ciências têm cada vez mais se afastado no campo prático.  Os profissionais de educação desconhecem boa parte do poder comunicacional quem tem em mãos, pouco estudam os fenômenos comunicacionais oriundos da interação professor x conteúdo x aluno,  e o jornalista, ser este cada vez mais pragmático, abre mão da sua função educativa, alimentadora do repertório intelectual da sociedade, reduzindo-se a um fazedor de textos desencantados e pouco reflexivos.

O que tiramos disso?   Uma sociedade que se informa sem critério – ou se desinforma – e incapaz de transformar  o acúmulo informacional da modernidade atual em conhecimento. Trata-se de uma relação simbiótica, com efeito em cadeia, já que uma depende da outra para se desenvolver plenamente.  Falo tudo isso, evidentemente, sob uma perspectiva estrutural. Há exceções, e boas, tanto na educação como na comunicação.

 Mas se estes primos não se falam e precisam tanto um do outro, porque então não buscamos uma reaproximação?

A oportunidade das “novas mídias”

Embora seja jornalista e comunicólogo, tive uma curta, porém, intensa experiência como professor na rede pública de ensino de São Paulo em 2010.  E lá pude confirmar, na prática, algumas hipóteses que sempre tive em relação à educação formal no Brasil.

De bom tira-se o motor criativo e inquieto das novas gerações.  Há em boa parte da molecada um entusiasmo, um ímpeto, uma ousadia, uma vontade de potência que muitos professores confundem com “bagunça”, “indisciplina”, “desrespeito” e outros termos menos amenos. Ora, me diga em qual lugar da história a criatividade, as ideias geniais, as grandes viradas da humanidade estiveram atreladas ao silêncio e à disciplina? Como diria Raul Seixas, “a desobediência é uma virtude necessária à criatividade”, doa a quem doer.

A criação nasce justamente do esgotamento de um formato, da negação duma estrutura, de um modelo secular incapaz de atender alguma necessidade. A escola de hoje em dia é um bom exemplo disso. O moleque, ao invés de aceitar passivamente aquilo que lhe é colocado como virtude, cria um novo modelo de comportamento, que não mais reconhece as formas consagradas de autoridade.  E dane-se quem não gostar, pois as relações de respeito pautadas na idade, na profissão, posição social e no local acabaram há muito tempo. O que vale hoje é a reputação criada com base na aparência, no consumo, na acúmulo, na experiência de ousar e transgredir. A escola, por sua vez,  não entende tampouco não sabe interferir positivamente nisso.

Falta a essa geração, no entanto, maior repertório intelectual e ético para dominar todas essas potências e, ao mesmo tempo, uma gestão escolar carismática e empática, capaz de canalizar essas competências em algo interessante não apenas para o ego do aluno. Pois senão, da perspectiva do aluno, mudar se torna uma rotina diária, viciante e prazerosa mas sem sentido, algo bastante típico de nossos tempos.

Falta-lhes desafios, incômodos, motivações que ultrapassem a simples busca por reputação. Há um certo pensamento tribal, bem típico da modernidade, que os aprisiona em seus mundos, dando-lhes a impressão de que o conhecimento absorvido em dez, doze anos é mais do que suficiente para lidar com a complexidade da vida. O resultado disso  a longo prazo tem sido visto por aí.  Pais, mães, avós, tios e tias, profissionais das mais diferentes áreas (incluindo educação e comunicação) infantis no pior sentido e medíocres na arte de educar, pois lá atrás se conformaram com o caráter duvidoso formado na infância.  Não é suficiente, e aqui temos novamente um problema de ego, de matriz hedonista (já que o prazer também está ligado à exploração de um certo jeito ‘gostoso’ de não mudar).

Tá, mas e as ‘novas mídias’? 

Bem, e o que as novas mídias têm a ver com isso?  Há nelas também um potencial mal explorado por parte da escola para se construir novas pontes e conexões entre os interesses do aluno, o conhecimento oferecido pela escola, pela vida e  pelas mídias, incluindo a Internet.

Antes de tudo, mistura-se demais “novas mídias” (daí as aspas) com suportes informacionais. Não que isso seja essencial, mas é importante não misturar. A Internet não é uma “nova mídia”, mas um grande suporte midiático – talvez o maior de toda a história. Promover acesso a internet numa escola não irá mudar a forma como os alunos são educados, embora, para efeito estatístico, os governos demagógicos exploram muito bem isso em filmetes e discursos persuasivos no período eleitoral.

A primeira coisa que se deve perceber em qualquer projeto escolar envolvendo as novas mídias é que elas têm uma particularidade em comum: a comunicação é de mão dupla. Não existe uma diferença tão clara entre autor e leitor, já que ambos possuem os mesmos recursos em potencial. Isso gera pelo menos um problema e uma solução.

O problema diz respeito ao controle comunicacional em rede. E não adianta, pois não há como fechar as portas neste modelo de produção de conhecimento, mas é possível canalizar fluxos informativos para o bem comum duma sala e, eventualmnte, eliminar aqueles que forem desnecessários.

Ao trabalhar com blogs, por exemplo, há que se criar uma estrutura responsável não apenas por socializar os inúmeros conhecimementos produzidos pela sala como também para moderá-los. Em contrapartida, a liberdade de informar traz o aluno como protagonista, como co-autor do conhecimento junto com o professor. Frente às novas mídias, o professor deve ocupar muito mais o papel de curador, ou seja, daquele que tem a capacidade intelectual e critérios para selecionar, filtrar, avaliar, criticar e ampliar o conhecimento sobre aquilo que é produzido e descoberto pelo aluno e conectá-lo a outros conhecimentos. O professor deve ser, assim, o que promove os “hiperlinks” necessários nestas redes de informação criadas pelas novas mídias em sala de aula.

Mas, e o ser humano?

O ser humano é também um novo e cada vez mais explorado suporte midiático. Tal qual um “homem-placa”, divulgando “exame de vista” ou “compro e vendo ouro”,  estamos cada vez mais com penduricalhos midiáticos (camisetas com grandes logotipos, aparelhos com valor social agregado,  enfim). E isso irá se acentuar nas próximas décadas, em uma aproximação cada vez mais assustadora entre humanos e máquinas. Cérebros orgânicos e circuitos integrados.

Eu, inclusive, tive uma experiência inusitada logo nos meus primeiros dias como professor. Algo que demonstra a importância de se tornar a moda em uma mídia voltada à reputação para esses moleques. Logo após ter entrado na sala, um garoto me cerca e a primeira coisa que ele diz não é “boa tarde” ou qualquer outra forma de tratamento do gênero, mas sim, “olha, o professor usa óculos da Oakley!”

Pra falar a verdade, nunca havia percebido que ostentava essa marca. Comprei essa armação em um desses stands de produtos chineses. Experimentei a armação, achei que ficou boa e comprei. A marca Oakley, representada por um ovinho vazado em alto relevo de uns três centímetros nas hastes, que pra mim não significa nada, é pra eles absolutamente importante do ponto de vista reputacional.

Por conta disso, entendo que a escola deve compreender  esta ‘mídia’ chamada humano antes de inserir qualquer tipo de processo de aprendizado envolvendo, de fato, novas mídias e tecnologias.  Entender o processo que leva a midiatização do humano que, voluntariamente, tornou-se um outdoor de carne e osso ávido por atenção, é um processo importante e necessário para colocar as  as novas tecnologias informacionais em seu  devido local.

Partindo deste cuidado inicial será possível perceber, por exemplo, que nem tudo que é novidade, nova mídia ou tecnologia chama a atenção do jovem. Há que se pensar não apenas em computadores, mas em interfaces que despertem o interesse do aluno pela informação e produção do conhecimento. A Oakley não caiu nas graças da molecada por acaso. Houve um trabalho massivo de criação de um imaginário sedutor, persuasivo, convidativo, envolvendo o design dos produtos e o vínculo da marca a diferentes valores. A escolha das mídias e dos suportes e da linguaguem foi fundamental para que garotos de 13 anos de idade se conformassem como mídias espontâneas da marca.

 A Internet tem rapidamente mudado a estrutura cognitiva do humano, colocando-o a frente de novas formas de hierarquizar a informação, de representá-la sobre a forma de ícones sígnos, combinações de imagens e infográficos. A informação transformada em aprendizado possui um determinado formato, um layout, uma forma de expressão. E qual seria ela? Esta é uma pergunta que todo educador deve fazer todos os dias.

Assim como na comunicação, na educação é preciso pensar cada vez mais no design da informação. Não dá mais pra ensinar apenas com giz e lousa. Sou favorável, inclusive, que as escolas tenham um departamento exclusivo para este fim, não apenas pensando em novas mídias, mas em comunicação como um todo.

Conclusão

As ciências e teorias da comunicação podem ajudar, e muito, neste processo de retomada da educação como local estratégico do desenvolvimento civil, científico e tecnológico de um país.  As novas mídias surgem como ferramentas com grande potencial para colocar boa parte destes conceitos em prática. Há que se ter, no entanto, a preocupação em se reposicionar a escola, o professor e o próprio aluno no processo de aprendizado.  Muita coisa mudou desde que a França instituiu este modelo secular de escola e continuamos nos prendendo a este único jeito de ensinar.

A comunicação traz caminhos, complementa as teorias educacionais, nos ajuda a entender o que está acontecendo na cabeça dos alunos. Passa por esta nova aliança a busca por reconhecer essas mudanças histórias e comportamentais promovidas pelo avanço tecnológico e oferecer solução – não remédios – para entrarmos em um novo momento de conciliação entre o ser humano e o aprendizado.

Afinal de contas, não houve até hoje tecnologia capaz de nos tirar a curiosidade, vocação humana das mais primitivas e que, ao mesmo tempo, se revela como das mais fundamentais para mantermos a esperança na educação.

Gostaria de conversar com a Penso Mídia sobre educação e novas mídias?

Nós estamos atentos às demandas vindas de educadores e escolas e temos  muito a colaborar para que as novas mídias e tecnologias da informação sejam devidamente inseridas no processo de ensino aprendizagem.

Este post inaugura uma série de outros dez artigos que iremos publicar sobre “educação e comunicação para a sociedade do conhecimento”. Esperamos, assim, colaborar para que novas abordagens de ensino sejam experimentadas em sala de aula.

Temos estratégias de mídia adequados a cada necessidade escolar e gostaríamos de apresentar algumas delas a você, gestor escolar interessado em melhorar a relação de seus alunos e professores com o aprendizado.

Entre em contato com a gente e marque uma visita de nossa equipe. Teremos o prazer de trocar experiências e colaborar com vocês.

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